Vamos acordar?

Vamos acordar?

Qual o limite da tolerância em cada um de nós? Como imaginávamos chegar em 2021, exatamente um ano depois de termos sido surpreendidos pela pandemia? Depois de todo esse tempo, estamos nós aqui, ainda mais atentos, pois os riscos aumentaram. Podemos enxergar todas as situações que a vida nos apresenta de várias maneiras: desespero, tensão, medo exacerbado… Talvez não seja o que precisamos neste momento para encontrar o equilíbrio necessário. É preciso parar, respirar e agir de acordo com o melhor possível agora. É esse convite que eu faço aqui, que possamos refletir e encontrar as possibilidades de atitudes cada vez mais conscientes e equilibradas para chegarmos ao futuro que tanto desejamos.

Minha impressão é que a vida veio ‘chacoalhar’ a nós, seres humanos, para que possamos acordar de alguns comportamentos que não têm nos levados para um lugar que estamos gostando. A boa notícia é que tenho observado algumas pessoas despertando para uma nova maneira de existir. Cito dois exemplos: ontem à tarde, fazia um trabalho de mentoria com um executivo de uma grande multinacional, alguém com muita experiência corporativa, e ele me disse: ‘sinto-me muito diferente, tenho o desejo de fazer coisas que vão além do que faço, de contribuir mais com as pessoas que me cercam, como eu posso fazer mais isso?’ Hoje pela manhã, um empreendedor bem sucedido, com bons resultados financeiros, enfatizou as várias mudanças que tem feito em sua vida: cuidado mais da saúde, diminuído o consumo, buscado mais tempo de qualidade com as pessoas que ama e promovendo possibilidades de contribuir mais com a sociedade. Ele ainda lançou as seguintes perguntas: ‘para que passamos tanto tempo da nossa vida buscando acumular coisas, qual o custo-benefício de tudo isso?’ Confesso que a última pergunta feita por ele, de alguma maneira, fez eco em mim.

Passamos muito tempo dormindo sobre a inconsciência de nossas ações. Instrumentalizamos a natureza e o homem em prol do capital, do acúmulo de coisas e, por vezes, perdemos a conexão com o que é mais importante, com a humanidade que nos habita. Muitos de nós, deixamos de olhar para nossos mundos internos e passamos a operar as nossas vidas de acordo com o que é bom para o ‘mundo de fora’, perdendo a consciência sobre nossas atitudes. Deixamos de ser tolerantes com as nossas vulnerabilidades e, por consequência, com as vulnerabilidades das outras pessoas também. Passamos a ser a sociedade da intolerância, do cancelamento, onde os índices de depressão e ansiedade tomaram proporções assustadoras. E não podemos esquecer que a pressão emocional só aumentou com a emergência da pandemia. Estamos sendo convidados a compreender que cuidar de si é cuidar do outro e, por isso, que quando o outro cuida de si, cuida das pessoas à sua volta também. Que não é o bastante fazermos somente a nossa parte, precisamos ajudar na mobilização para que todos participem, afinal somos um e somos todos ao mesmo tempo.

A principal reflexão que gostaria de trazer aqui é a de que algumas pessoas ainda não acordaram para o que essa nova realidade nos pede. Eu me refiro à ‘era do cancelamento’. Seria a nossa parte, a atitude mais produtiva, simplesmente apontar o dedo, cancelar pessoas? O momento nos pede o exercício da tolerância, da compreensão, do diálogo e de acolhermos mais e julgarmos menos. Mesmo que se sinta consciente, ‘acordado’, você não empenha o melhor de si julgando todos aqueles que ainda dormem. Como é ‘ACORDAR’ o máximo de pessoas, com compreensão e gentileza, despertando-as para uma existência mais humanizada? Não dá mais para seguir assim – julgando e sendo julgado; cancelando e sendo cancelado. Penso que esse seja um dos ofensores para o adoecimento emocional tão presente em muitas pessoas. Tudo o que desejamos é pertencer, sermos acolhidos e aceitos, antes mesmo de sermos julgados. O julgamento nos vulnerabiliza, nos coloca com comportamentos defensivos e nos desconecta de bons propósitos. É momento de unirmos perspectivas, saberes, pontos de vista divergentes em prol de algo realmente importante: combater o vírus com o menor grau de prejuízo possível para a humanidade. E para nos apoiar nesse desafio, um novo vírus precisa ser espalhado.  

E se a gente criasse nos laboratórios das nossas vidas, variações mais potentes de um vírus do bem e absolutamente necessário? O vírus da empatia. Poderíamos espalhar para o máximo de pessoas possível, abrindo espaços de conexão com o mais alto potencial que nós, seres humanos, trazemos. O que exatamente, significa empatia? Aprendemos que empatia é capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, mas essa definição é muito simplista e não dá conta do movimento que a atitude empática precisa mobilizar em cada um de nós. Não é adequado julgar o outro a partir da nossa perspectiva, uma vez que não conseguimos nos colocar no lugar do outro. Vivemos experiências distintas, elas nos diferenciam na forma de pensar, sentir e agir. Mara Mourão, ao registrar histórias de empreendedores sociais pelo mundo no premiado documentário, “Quem se importa”, tem como um dos destaques a história sobre o trabalho de Mary Gordon por meio da empatia. Gosto de como ela aborda a questão. Com a intenção de diminuir o bullying nas escolas, ela leva bebês de 2 a 4 meses (com suas mães) para interagirem com crianças de 4 a 14 anos, para que essas crianças desenvolvam a capacidade de cuidar. Mary Gordon enfatiza que “o melhor motor para o aprendizado é por meio da experiência”.

Para Gordon, a empatia tem dois lados, o cognitivo e o emocional. Para a parte cognitiva, ela fala sobre a importância da tomada de perspectiva do outro. Entendo que, muitas vezes, teremos dificuldade em “tomar a perspectiva” se olharmos pelas nossas lentes, a partir da nossa história de vida, das nossas próprias experiências. Tomar a perspectiva do outro tem a ver com imaginarmos como ele se sente a partir de seu próprio contexto. Quando nos possibilitamos a perspectiva do outro e imaginamos com ele se sente, abrimos o caminho para acessarmos o lado emocional, agindo a partir da ética do cuidado. Compreendemos até que ponto podemos avançar e em que tempo, promovendo uma experiência de cuidado genuíno e atenção em relação ao bem-estar do outro. Nem sempre concordaremos com a atitude do outro. Alguns ainda dormem.

Lembre-se de que você não precisa concordar com as decisões e atitudes do outro, mas sim compreender como ele pensa, sente e age, quais os seus verdadeiros motivos. E só será possível chegar a esse nível de compreensão se nos disponibilizarmos a ouvir empaticamente, com tolerância, suspendendo aquela voz que insistirá em nos acompanhar: a voz do julgamento.

Carl Gustav Jung tem uma frase muito pertinente quando o assunto é julgamento. “Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar.” Quando nos acostumamos com o ‘piloto automático’ em que as nossas vidas estão, deixamos de fazer as pausas e as reflexões que nos conectarão a propósitos e intenções mais nobres;  deixamos de compreender as nossas emoções; culpamos e julgamos os outros por meio de atitudes intempestivas e, por vezes, agressivas. Nesse momento está ‘doendo’ de maneira diferente para cada um. O ‘instinto de sobrevivência’ vem à tona de muitas maneiras, é natural ficarmos mais intolerantes, mais julgadores, porém isso não nos ajudará a passar por tudo isso da melhor maneira possível.

A vida nos pediu para parar, diminuir o ritmo. Então, vamos aproveitar para refletir mais e julgar menos? Vamos acordar que seremos mais tolerantes e acolhedores? Intencionar que seremos aqueles que clamam por mais acolhimento e tolerância? Nos disponibilizar para estarmos juntos, mesmo com opiniões distintas, mas conectados a propósitos que vão além do nosso próprio ego. Enquanto não chega a cura ou mesmo a vacina para todos, o vírus da empatia pode acolher os momentos de desequilíbrio que passaremos, conduzindo-nos de volta ao eixo e facilitando a jornada que ainda precisamos seguir até o futuro tão desejado.

E se eu estiver dormindo, você se compromete comigo em ajudar no meu despertar, com compreensão e gentileza? E se por acaso eu estiver acordada, prometo fazer o mesmo sempre que possível, até onde minha capacidade me permitir.

Vamos juntos?

Izabela Mioto
Sócia cofundadora da Arquitetura RH. Graduada e Mestre em Psicologia pela UNESP. Coordenadora da Pós em Gestão de Pessoas da FAAP. Professora dis cursos de pós-graduação e MBA da FAAP, FIA, Fundação Dom Cabral, Albert Einstein e Instituto Saint Paul. Interventora na metodologia Humam Code