O sucesso traz felicidade? Ou é exatamente o contrário?

O sucesso traz felicidade? Ou é exatamente o contrário?

Sucesso e felicidade são temas presentes nos sonhos e projetos do ser humano desde os tempos remotos. Muitas vezes, a busca desenfreada por sucesso pode comprometer a felicidade. Já por outro lado, observa-se que pessoas felizes e realizadas encontram facilmente o sucesso. Onde reside a magia que une um ao outro?

Muitos perdem a chance de vivenciar um estado de felicidade no presente porque estão absurdamente empenhados em perseguir metas de sucesso profissional futuro. Por mais que se esforcem, nunca chegam lá ou, quando chegam, depois de uma longa batalha, descobrem que se afastaram dos companheiros e da família, estão doentes ou têm uma crise de burnout e, simplesmente, “apagam”.

Alcançar o sucesso para depois encontrar a felicidade é uma questão que pode parecer bem resolvida para pessoas de índole muito prática. Porém, ela esconde armadilhas e surpresas desagradáveis ao longo da vida, impactando tanto desenvolvimento pessoal quanto profissional. É muito fácil cair nesse processo desagregador com toda a pressão por resultados, aprendizado contínuo, presença nas redes sociais e outras demandas que consomem as horas do dia e da noite.

Se você se identifica minimamente com isso, fique firme, você não está só e existem meios para encontrar o equilíbrio e ir em busca do que realmente importa. Mas o que importa de fato? Entre as muitas respostas possíveis, acredito que você está no bom caminho quando encontra a própria essência e se torna um agente catalisador de mudanças para o bem comum.

Esse movimento “para dentro” forma uma espécie de onda transformadora que pode trazer resultados muito positivos para todos os campos da vida. Isso porque ela amplia conexões com pessoas e lugares que se identificam com a sua essência, proporcionando uma agradável sensação de bem-estar, ao mesmo tempo que tudo contribui para que suas iniciativas sejam bem-sucedidas.

“Sucesso não é quanto dinheiro você ganha, mas a diferença que faz na vida das pessoas.” Michelle Obama

Em entrevista à BBC, o monge budista Mathieu Ricard afirmou que a felicidade não é simplesmente uma sucessão interminável de sensações prazerosas, o que parece mais uma receita para a exaustão. Ele acredita que ela está mais para uma forma ideal de ser que resulta do cultivo de muitas qualidades fundamentais, como altruísmo, compaixão, liberdade interior, resiliência, equilíbrio emocional, equilíbrio e paz interior. Diferentemente do prazer, todas essas qualidades são habilidades que podem ser cultivadas por meio da prática e do treinamento de nossa mente.

“A felicidade é uma profunda sensação de florescimento que surge de uma mente excepcionalmente saudável. Este não é um mero sentimento de prazer, uma emoção passageira ou um estado de espírito, mas um estado ideal de ser. A felicidade também é uma forma de interpretar o mundo, pois, embora possa ser difícil mudar o mundo, é sempre possível mudar a maneira como o vemos.” Matthieu Ricard

A conexão entre felicidade e sucesso recebe atenção de cientistas e pesquisadores no mundo todo. Uma revisão de 225 estudos no Psychological Bulletin revelou que a felicidade não segue necessariamente o sucesso. Na verdade, é exatamente o oposto: a felicidade leva ao sucesso. De acordo com as descobertas do estudo, pessoas felizes buscam e empreendem novos objetivos que reforçam a própria felicidade e outras emoções positivas.

A autora e pesquisadora Sonja Lyubomirsky, Phd. da University of California, dedicou grande parte de sua carreira ao estudo da felicidade humana. Com base na revisão de toda a literatura disponível sobre o tema, ela constatou que a felicidade tem vários subprodutos positivos os quais parecem beneficiar não apenas os indivíduos, mas também as famílias, as comunidades e a sociedade em geral. A literatura também sugere que indivíduos felizes são mais criativos, prestativos, caridosos e autoconfiantes, além de terem melhor autocontrole e mostrarem maior capacidade de autorregulação e de enfrentamento.

Ao abordar os benefícios da felicidade, Lyubomirsky aponta:

· maior renda e resultados de trabalho superiores (maior produtividade e maior qualidade de trabalho);

· maiores recompensas sociais (casamentos mais satisfatórios e mais longos, mais amigos, apoio social mais forte e interações sociais mais ricas);

· mais atividade, energia e fluxo e melhor saúde física (sistema imunológico fortalecido, níveis reduzidos de estresse e menos dor); e

· vida mais longa.

Talvez você ainda se pergunte o que toda essa busca por felicidade tem a ver com sua jornada profissional e eu respondo: tudo, ou quase tudo. É claro que o sucesso também vai depender do seu esforço de aprendizado, que agora é permanente, de suas habilidades de relacionamento, comunicação, resiliência e tantas outras que fazem diferença no seu desenvolvimento profissional. Agora, pense: uma pessoa infeliz consegue transmitir positividade ao time, ter empatia e liderar com gentileza? Acho muito difícil.

Diante das novas demandas do mercado, que estão impactando fortemente as lideranças, fica ainda mais evidente que pessoas em equilíbrio pessoal, que valorizam a própria felicidade e a dos demais têm muito mais chances de alcançar o sucesso. Aliás, os clientes, de todos os setores, avaliam o propósito e os valores das marcas, e as marcas são construídas por pessoas.

Internamente, o capital humano tem sido cada dia mais valorizado e os novos modelos de gestão apontam para o trabalho em squads que reúnem profissionais com diferentes habilidades, ao mesmo tempo que as lideranças atuam como incentivadores desses times multidisciplinares. A hierarquia cede lugar à colaboração, exigindo uma certa dose de humildade e empatia.

Se você for empreendedor, todas essas questões também são essenciais para o sucesso dos negócios e, tenha certeza, ninguém quer trabalhar com líderes infelizes. Os melhores profissionais também buscam as melhores pessoas para alcançar resultados que vão muito além da remuneração financeira.

Em artigo publicado pela Wharton University, o especialista na conexão entre felicidade, produtividade e sucesso e autor do best-seller “The Happiness Advantage and Before Happiness”, Shawn Achor, traz uma importante contribuição para esse tema:

“Muitas pessoas pensam que o sucesso leva à felicidade, mas na verdade é o contrário. Uma década de pesquisas em psicologia positiva e neurociência descobriu que a felicidade é o precursor do sucesso – não o resultado. A pesquisa com empresas também provou que a felicidade e o otimismo realmente alimentam o desempenho e as realizações, dando a elas uma vantagem competitiva no que chamo de vantagem da felicidade. Ela surge do fato de que o cultivo da felicidade ou emoções positivas têm uma relação causal direta com a produtividade e o sucesso de indivíduos e equipes.

Seus benefícios incluem:

· 3 vezes mais criatividade.

· Produtividade 31% maior.

· 23% menos sintomas de fadiga.

· Vendas 37% maiores.

· 40% mais probabilidade de obter uma promoção.

· Indivíduos 10 vezes mais engajados.

Isso ajuda a explicar por que empresas como Google, Yahoo! e Virgin cultivam ambientes de trabalho que ajudam seus funcionários a vivenciar emoções positivas regularmente.”

Quando você observa esses benefícios, fica mais fácil entender como a felicidade se conecta com o tão almejado sucesso e, principalmente, que ela antecede à conquista dele. É interessante verificar que a felicidade depende mais de nossas atitudes perante a vida e muito menos de uma sorte repentina que nos alcança.

Tomar consciência de nossas emoções, carências, potencial e valor como seres humanos ajuda e muito a adotar atitudes mais assertivas que levam a estados de bem-estar, alegria e felicidade. Pense nesse movimento como uma jornada, em que você alcança um objetivo para chegar a outro, invertendo a crença de que o sucesso traz felicidade. O que comprovadamente não corresponde à vida real.

Marcia Lerinna.